Wednesday, May 31, 2006

Este blog foi criado especialmente para louvar e dar a conhecer a grande forma de escrever de bocage.Apesar de ser pouco lembrado, bocage foi um grande poeta do século XVIII. Não é um poeta muito aclamado pela sociedade, talvez pela forma de escrita que ele utilizara, era uma forma satírica e especialmente erótica. Achamos por bem divulgar uma pequena biografia e alguns dos seus poemas, para que este não caia no esquecimnto das sociedades contemporaneas e das sociedades futuras.

Friday, May 26, 2006

vida e obra

vida e obra
Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, Portugal, em 1765. A sua aptidão pela escrita e poesia começa logo na infância. Tinha pretensões de se tornar um grande poeta lírico como Camões, pelo que ficou feliz quando em 1786 foi enviado, tal qual seu herói, para a Índia (Goa e Damão). Contudo, tal como Camões, desiludiu-se com o Oriente e voltou para Portugal.Pelo tipo de escrita que assume e pela vida extravagante que leva, Bocage torna-se o poeta boémio, satírico e erótico. A sua poesia é a poesia do mundo, da noite, do corpo, da mulher. Ficou conhecido pelos seus inúmeros amores, retratados na maioria dos versos que escreveu. Acredita-se que Gertrúdia foi o grande amor de sua vida, devido à quantidade de poemas a ela dedicados. Foi várias vezes preso e torturado, acusado de heresia e de dissolução dos costumes e dos valores morais. A sua escrita era demasiado libertina para a mentalidade da época. Bocage era o poeta incompreendido pela sociedade.Vítima de um aneurisma cerebral, Bocage morre aos 40 anos de idade, em Lisboa.Obra:Rimas, 3 volumes, 1791, 1799 e 1804Obras Completas, 1811Rimas, 4º volume, 1812Rimas, 5º volume, 1813Rimas, 6º volume, 1814Obras poéticas (7 volumes), 1849-50

Magro, de olhos azuis,carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio,e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

bocage

Frouxidão no amor

A frouxidão no amor é uma ofensa
A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.
Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.
Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.
Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.

o cao e a cadela

Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em vão.
Dando no chichisbéu dentada e mais dentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão desabridas,
Era co'um torpe cão fagueira às escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.
Bocage

Ó deusa, que proteges dos amantes
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importantes astros vigilantes:
Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio de Ritália melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
Turbem d'amor os sôfregos instantes:
Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!
Tarda ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça, até que expire
Nas ternas ânsias, no inefável gosto.
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
A um célebre mulato Joaquim Manuel ,
grande tocador de viola e improvisador de modinha.
Esse cabra ou cabrão, que anda na berra,
Que mamou no Brasil surra e mais surra,
O vil estafador da vil bandurra,
O perro, que nas cordas nunca emperra:
O monstro vil que produziste,
ó Terra Onde narizes Natureza esmurra,
Que os seus nadas harmônicos empurra,
Com parda voz, das paciências guerra;
O que sai no focinho à mãe cachorra,
O que néscias aplaudem mais que a "Mirra",
O que nem veio de prosápia forra;
O que afina inda mais quando se espirra,
Merece à filosófica pachorra

Bocage

Marília, se em teus olhos atentara
Do esterífero sólio reluzente,
Ao vil mundo outra vez o omnipotente,
O fulminante Júpiter baixara.

Se o Deus, que assanha as Fúrias, te avistara
As mãos de neve, o colo transparente,
Suspirando por ti, o caos ardente
Surgira à luz do dia e te roubara.

Se ao ver-te de mais perto o sol descera,
No áureo carro veloz dando-te assento,
Até da esquiva Dafne se esquecera.

E, se a força igualasse o pensamento,
Ó alma da minha alma, eu te of'recera
Com ela a terra, o Mar e o Firmamento.

bocage

Temo que a minha ausência e desventura
Vão na tua alma, docemente acesa,
Apoucando os excessos da firmeza,
Rebatendo os assaltos da ternura.
Temo que a tua singular candura
Leve o Tempo, fugaz, nas asas presa,
Que é quase sempre o vício da beleza
Génio mudável, condição perjura.
Temo; e se o mau fado, fado inimigo,
Confirmar impiamente este receio.
Espectro perseguidor que anda comigo,
Com rosto alguma vez de mágoa cheio,recorda-te de mim, dize contigo:
«Era fiel, amava-me e deixei-o»

bocage
A teus pés, meu bem, rendido,
Confirmo os votos que a traição manchara,
Fumam de novo incensos sobre a ara,
Que a vil ingratidão tinha abatido.
De novo sobre as asas de um gemido
Te of'reço o coração, que te agravara;
Saudoso torno a ti, qual torna à cara,
Perdida Pétria o mísero banido;
Removemos o nó, por mim desfeito,
Que eu já maldigo o tempo desgraçado,
Em que a teus olhos não vivi sujeito;
Concede-me outra vez o antigo agrado;
Que mais queres? Eu choro, e no meu peito
punhal do remorso está cravado.

bocage
Voa a Lília gentil meu pensamento
Nas asas de esperanças sequiosas;
Amor, à frente de ilusões ditosas,
O chama e lhe acelera o movimento.
Ígneo desejo audaz, que em mim sustento,
Mancha o puro candor das mãos mimosas,
Os olhos cor dos céus, a tez de rosas,
E o mais, onde a ventura é um momento.
Eis que pesada voz, terrível grito
Soa em minha alma, o coração me oprime,
E austero me recorda a lei e o rito.
Devo abafar-te, amor, paixão sublime?
Ah! Se amar como eu amo é um delitoLília formosa aformoseia o crime.
Não, Marília, teu gesto vergonhoso,
A luz dos olhos teus serena e pura,teu riso, que enche as almas de ternura,
Agora meigo, agora desdenhoso;
Tua cândida mão, teu pé mimoso,
Tuas mil perfeições crer que a Ventura
As guarda para mim, fora loucura:
Nem sou digno de ti, nem sou ditoso;
E que mortal, enfim, que peito humano
Merece os braços teus, ó ninfa amada?
Que Narciso? Que herói? Que soberano?
Mas que lê minha mente iluminada!...
Céus!... Penetro o futuro!...Ah! Não me engano:
De Jove para o toro estás guardada.

bocage